Minha memória é traiçoeira. Muitas vezes, se encontro alguém, sei que conheço. Não me lembro de onde. Menos ainda do nome da pessoa. A criatura se aproxima com familiaridade. Penso: “Devo conhecer, e bem”. Vem a conversa. Planto deixas para ver se a pessoa me dá uma dica para localizá-la em algum arquivo da memória.
Evito a palavra casamento, por não saber se a figura é solteira, casada ou disponível.
Salta a resposta:
_Estou na mesma.
Oh, céus! Tanto pode significar que permanece com a mesma esposa ou cumpre um antigo voto de castidade!
Inevitavelmente, um amigo entra no meio da conversa.
_Opa, você está aí.
Por educação, eu deveria apresentar os dois. Impossível.
Lembro só do nome de quem chegou! Disfarço:
_estávamos aqui falando...
Piora quando o recém-chegado é u, insensível e diz:
_Não vai me apresentar?
Quase grito: ”Socorro!”. Tento dar uma cartada para descobrir o nome do primeiro. Digo:
_Para que tanta formalidade! Melhor se apresentarem sozinhos!
Ouço um nome comum. Continuo no vácuo. Fujo para pegar uma bebida. No meio do caminho, lembro:
_Mas é meu primo!
Volto correndo. Peço Desculpas:
_Não tenho cérebro. Mas um mata-borrão no lugar.
_Achei que estava estranhado. Tudo bem, é muito ocupado.
_Ocupado, não. Sou doido!
Já cometi falhas incríveis. Certa vez pensei, ao olhar para uma mulher alta: “Acho que conheço”. A dita-cuja se aproximou:
_Não está me reconhecendo? Ou me confundiu com um coqueiro?
Era uma amiga de escola Ana Flávia, que se formou em advocacia. E eu:
_Ah, desculpe, meus olhos estão ruins.
Mentira. Foi um branco. Para piorar, dali a alguns meses, em outra festa, vi a mesma moça alta... e não reconheci a Flávia de novo! Por segurança, se alguém me faz sinal com a mão de longe, sempre retribuo. A pessoa faz carão. Dali a pouco descubro que era para alguém atrás de mim, ou do lado...
Também ocorre o contrário: penso que conheço, mas confudi cm alguém. Dou um abraço, feliz:
_Sabe que eu estava com saudade?
Preocupado porque não se lembra de mim, o outro responde constrangido:
_Ah, eu também. Muita saudade.
_Como vai sua mãe? Faz tempo que não a vejo.
_Esta boa, ainda mora no Paraná. Nunca sai de lá.
Gelo por dentro. Jamais visitei a mãe de alguém no Paraná. E de repente descubro que não conheço o abraçado.
_Foi bom te ver, mas eu...
_Espera!
Depois de ter falado da mãe o fulano acha que me conhece.
Quer descobrir de onde. Puxa papo:
_E seu irmão? O consultório dentário vai bem?
_Meu irmão não é dentista.
_Ah, é , confundi. Mas então...
_Pois é então...
Crio truques com os amigos:
_Se você me vir conversando com alguém, apresente-se primeiro e pergunte o nome da pessoa.
Na hora H, ninguém se lembra!
Às vezes digo simplesmente:
_sinto muito, seu nome virou fumaça na minha cabeça. Magoa. A resposta torna-se amarga:
_E... Agora não dá mais importância aos pobres!
Quase me ajoelho para pedir perdão! O esquecido se afasta ofendido. Também tento:
_Claro que não te reconheci, você esta tão magra! Ficou linda!
Esse truque confesso, sempre dá certo!
Tenho ido a eventos comerciais em que todo mundo usa crachá. Que alívio! O último foi a Bienal do Livro. Encontrei pessoas que não via fazia muitos anos.
_Oi, Lembra-se de mim? _alguém dizia.
Espetava os olhos no crachá. Abria os braços:
_Claro! Há quanto tempo!
Sei que é uma lei impossível. Mas todo mundo devia ser obrigado a usar crachá. Minha vida se tornaria muito mais fácil. E aposto que a de muita gente também.

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